A CRIAÇÃO MUSICAL E A IMAGINAÇÃO
Maestro Armando Ferrante jr.

Parte I

Faz-se necessária uma correta interpretação dos significados de Intuição e Imaginação, largamente confundidos por estudiosos que opinam sobre a maneira que flui a inspiração artística, de onde vem, quando é elaborada, como se expressa etc.

A Intuição é superior à razão para perceber a Suprema Verdade; é um estado mental em que qualquer verdade desejada é instantaneamente compreendida. A Intuição, ou Samâpatti, é aquele estado mental em que se faz possível receber a reflexão dos mundos subjetivo e objetivo. É o conhecimento superior, real e objetivo.

Blavatsky define como “a visão direta com os olhos da alma, em virtude da qual o homem adquire por experiência própria a percepção ou conhecimento claro, íntimo e instantâneo de uma idéia ou verdade, sem o auxílio da razão, sem recorrer ao raciocínio”.

A Intuição corresponde às faculdades da mente superior, e é o guia infalível do vidente. Na Mente Cósmica (Manas superior) os conceitos independem dos sentidos. É a sede das idéias abstratas e transcendentais. No Mental Concreto (Manas inferior) reside o Raciocínio, a sede dos pensamentos.

O Raciocínio depende dos sentidos, seja ele: Indutivo (F. Bacon), Intuitivo (Descartes), Dedutivo (Aristóteles). Desta forma, podemos afirmar que “quem pensa não dá palpites mas, sim, tem opinião, que é o pensamento trabalhado, é o Raciocínio”.

Em Ocultismo não podemos confundir Imaginação com fantasia, pois que a Imaginação é um dos Poderes Plásticos da Alma Superior, produzido pela consciência ativa, o desejo e a vontade. A Imaginação cria, concebe, inventa. O artista utiliza-se da Imaginação para idear, inventar, projetar, executar, imaginar-a-ação, expressar, realizar o que antes lhe foi comunicado pela Intuição. O uso disciplinado da Imaginação promoverá a conquista de ideais, ao passo que o uso desenfreado da fantasia retardará este processo.

A ARTE só pode tomar o lugar da Religião e substituí-la quando é verdadeiramente inspirada, intuída pelo artista que usará a Imaginação para expressar a Realidade Divina por ele percebida. O músico que está destinado a provocar intuições na mente do ouvinte, sem dúvida nenhuma é um receptáculo humano da Inspiração Divina.

Atualmente, podemos observar nas variadas obras artísticas que nos chegam através dos meios de comunicação (composições musicais, pinturas, esculturas, artesanatos etc.), e de maneira muito clara, a forte transição da Arte entre uma Era moribunda e uma Era recém-nascida, ou ainda, conforme os ensinamentos ministrados na Sociedade Brasileira de Eubiose “a passagem de um ciclo apodrecido e gasto para um novo Ciclo de Esperanças, a Era de Aquário etc.”

Os artistas verdadeiros usam sua imaginação para substituir a relativa permanência formal dos séculos passados por uma incessante apresentação de “vanguardismos”, reivindicando intuitivamente a posse do futuro; o artista imagina a premência da mudança, da inovação, da constante exigência imaginativa de originalidade e criatividade.

O verdadeiro artista luta por uma Arte continuamente atenta à necessidade de aprimorar a expressão através da Imaginação, mas de olhos postos, sobretudo, nas essências. É a luta pela renovação de valores fundada nas fontes inspiradoras dos Planos Superiores, do 2° Trono, o Akasha, e nunca na pretensiosa ostentação de modelos, caprichos e inclinações pessoais ou, em todo caso, de matiz separatista. A Hierarquia Jiva tem, desde já, a idade suficiente para que se coloque a tônica na qualidade, não na quantidade; na alma mais do que na forma; na Unificação e não na multiplicidade involutiva.

Relembrando o saudoso Mestre, o Professor Henrique José de Souza: “A arte, que até hoje reproduziu a parte externa da Natureza, deve ceder lugar a uma outra arte mais espiritualizante, que nos conduza à contemplação da alma, penetrando no templo e seu coração divino. Portanto, formas, cores e sons, devem buscar um ritmo oculto. O grande progresso da Música, em pouquíssimos séculos, nos dá um vislumbre da espiritualidade a que aludimos. A Música é a Arte que mais profundamente comove a alma, muito mais do que a poesia, por estar sujeita à mente, enquanto a Música lhe deixa o campo aberto, completamente livre para sonhar à vontade”.

Desta forma, relevamos o caráter imperioso da afirmação do 2° Trono que está presente em tudo quanto existe. A criação artística é impulsionada pelo Pai, conceitualmente elaborada pela Mãe e exteriorizada ou realizada pelo Filho.

Beethoven, o gênio das obras Cosmogônicas, afirmava: “A Música é uma Revelação muito mais sublime do que toda Sabedoria ou Filosofia. Ela é a única introdução incorpórea no mundo superior do Saber, esse mesmo mundo que rodeia o homem, cujo significado interior não se percebe por conceitos reais; a parte formal daquela é simplesmente o veículo necessário, que revela por meio de nossos sentidos, a vida espiritual”.

A Arte é a apreensão e a expressão do Belo. Com a Intuição apreendemos e com a Imaginação expressamos. A Arte então envolve dois momentos: no primeiro, a mente voltada para a Realidade, para o mundo dos valores espirituais, para o Reino das coisas permanentes onde ela busca a iluminação, conseguindo-a. O segundo momento é o da expressão, concretização, ou precipitação da realidade que se captou anteriormente. A Idéia deve, portanto, através da Imaginação, descer aos níveis físicos.

Vemos que em ambos os momentos a Imaginação, ou ainda, a Mente é o elemento decisivo constituindo a ponte, o transmissor, o religare, o intercomunicador e aquilo que decide a apreensão e a expressão.

Se por analogia aplicarmos, neste conceito, o Princípio Hermético de Polaridade, vemos que a Arte é a capacidade Divina de apreender, nas relações entre as coisas, o conflito e a harmonia, sendo ambos sintetizados pelo Princípio de Polaridade. A Arte exprime, por um lado, a diversidade e a contradição entre as coisas e entre os estados de consciência que provoca (ou seja, o conflito) e, por outro lado, a similaridade, o parentesco e a raiz comum dos fenômenos e dos correspondentes estados de consciência (ou seja, a harmonia). A lei de coesão sintetiza e supera esta antítese mantendo num todo orgânico o simples e o complexo, a unidade e a diversidade, a atração e a repulsão, a Polaridade. A essência do Belo está justamente nessa capacidade de coesão e na sua apreensão (ainda que inconsciente).

O Belo é o relacionamento eficiente entre os pólos, entre coisas, entre objetos, entre sujeitos, entre os átomos ou as frações que, no tempo e no espaço, constituem o Universo. O Belo em termos absolutos – e o Belo em termos absolutos é DEUS – requer que essa relação seja equilibrada, Justa e Perfeita. Tal relação pede, necessariamente, a existência de uma ordem e a Arte, como expressão e apreensão do Belo pressupõe, consequentemente, esta desejada ordem, uma certa unidade, em suma: a identificação de todas as coisas e fenômenos no Uno, em Deus.

O Professor Henrique José de Souza, ao descrever as regras de Ritmo moral, que afinam a Alma para que tome parte na grandiosa Sinfonia do Ritmo Cósmico, dizia que “o Ritmo é Ordem e somente pela Ordem tudo pode ser alcançado. A Música é o esquema filosófico intuitivo do Universo inteiro; o plano ou mapa da Metafísica Universal. Toda Música emana de um foco e se estende em ondas, como os vitais eflúvios do Astro do Dia; como o despregar do Cosmos no momento da Criação, se é que as deduções da Mente Humana, em presença da imensidade, possuem algum valor. Essas ondas espalham-se no espaço por uma ordem harmônica em séries regulares: é a Lei do Ritmo. E como esta Lei Universal, acham-se representadas na Música todas as essências, todas as categorias de filósofos; todas as substâncias universais, exceto a matéria, que não atua, senão como veículo de manifestação, ou antes, da perceptibilidade para outros”.

Sem a vida de Deus, do Uno em nós (ou, por outras palavras, se não fossemos deuses), não poderia haver o fenômeno humano a que chamamos Arte. Não haveriam artistas e nem quem os compreendesse. Seria impossível a consciencialização ou apreensão do Belo (ou do Bom, do Justo, do Verdadeiro).

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